RESENHA // A Viagem

*** ATENÇÃO: Esse artigo contém spoilers sobre o filme A Viagem (2012). ***

Quando me foi sugerido esse filme para assistir, torci o nariz de leve. Lembrava-me vagamente de alguém me recomendando, e o mesmo me dizendo que precisava ter estômago para assisti-lo. Tentando recordar-me de onde isso vinha, tentei ler a sinopse. Mas a danada, muito da esperta, foi decepcionantemente vaga:

Seis histórias diferentes, no passado, presente e futuro, se conectam depois de um apocalipse nuclear.

Vago é um termo fraco para definir essa sinopse. Chega a ser quase negligente. Assisti o trailer. Usando as palavras da minha mãe: Fantasioso, no mínimo. Mas gostei. Parecia uma boa história de romance e aventura, algo que qualquer adolescente iria gostar. A censura 16 anos me deixou um pouco apreensiva. Esses filmes costumam não ter limites, e não há garantia de finais felizes neles. Não há sutilezas como nos filmes apropriados para a minha faixa etária.

Ainda assim prossegui. Na primeira cena, Tom Hanks parecia ter vindo de um sonho meu. Ele era o perfeito mestre que guiaria uma jornada fantástica. Estava velho, e uma grande cicatriz cortava seu rosto. Ele começa a contar uma história, e honestamente, eu me perdi na metade do que ele disse.

O filme vira completamente do avesso. E de novo, e de novo, e de novo. E em menos de meia hora, somos apresentados à meia dúzia de histórias diferentes, com cenários diferentes, em épocas diferentes, com problemas diferentes, aparentemente aleatórias. Porém logo se fazem notar duas similaridades acerca delas: Em primeiro lugar: O elenco continuou o mesmo. Durante as quase três horas de história, você se habitua a sempre olhar duas vezes um rosto. Homens viram mulheres, negros viram asiáticos e jovens viram velhos em um piscar de olhos. É claro, que tais mudanças não ficam muito bem aos olhos algumas vezes, mas em outras é quase impossível notar a diferença.  Doona Bae, Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Susan Sarandon, Hugh Grant,Ben Whishaw, Keith David, Jim Broadbent e James D’Arcy parecem brincar de esconde-esconde conosco, escondendo-se minuciosamente em cada segundo de filme.

A outra similaridade entre as histórias, é que em todas elas, há algum grande amor envolvido. Às vezes, ele é a causa do problema. Outras vezes, a solução. Algumas vezes, ele permanece escondido até o ultimo segundo. Os finais desses amores nem sempre são felizes, temo em dizer.

Os diretores, na ficha técnica do filme, constam 3: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski. Andy e Lana, para quem não sabe, foram os diretores, roteiristas e produtores que nos trouxeram Matrix. É claro que, depois de deixar muita gente confusa com os três filmes, eles não pararam por aí.

A Viagem é um filme longo, mas não por isso menos cativante. Sua característica principal é ficar pulando de uma história para outra. Por se tratarem de histórias muito opostas, e por causa da mudança muito rápida, é muito difícil precisar todas as ligações que uma história tem com a outra, embora seja difícil ignorar que tais ligações existam. Para entender o filme, é preciso uma mente muito boa. E ainda assim, é um filme para se assistir mais de uma vez. Na primeira vez, é um pouco frustrante o jeito que a história muda quando você começa a entendê-la, e então quando ela retorna para o seu final, você já não se lembra de nada. Talvez essa tenha sido uma técnica para fazer o filme enterrar-se mais profundamente em você. Talvez sejam só o Andy e a Lana tentando manter sua fama.

Vale fazer notar que o título do filme, traduzido para o português perdeu completamente o sentido. Em inglês, Cloud Atlas, é tanto o nome de uma sinfonia composta durante o filme quanto um provável paralelo ao mito do titã Atlas que segura o peso do mundo sob seus ombros.

De qualquer modo, eu recomendo o filme tanto para amantes da ficção científica quanto aos amantes dos filmes de amor, assim como os de ação, aventura e suspense. Ele mostra, além de uma conexão inexplicável entre vidas, civilizações pós-apocalípticas, a beira de um apocalipse, civilizações antigas, e até mesmo a nós mesmos, vivendo, nossa vida. Mostra o amor, e todas as suas facetas, sejam elas bonitas ou não. Há sangue, assassinatos, perseguições, tramóias e mentiras. É bonito, é profundo, é intrigante, é revoltante e faz você se perguntar: A quantas vidas a minha está atrelada?

Bellatriz Fernandes

Um comentário sobre “RESENHA // A Viagem

  1. Evandro Fadel disse:

    Esse filme não estava entre minhas prioridades e acho que nem mesmo entre as não prioridades. Não vou assisti-lo no cinema em razão das três horas de duração. Penso em fazê-lo em casa para ver e rever cenas ou o filme todo quantas vezes achar necessário para entendê-lo e assimilá-lo, visto que parece bastante complexo. Mas de uma coisa não tenho dúvidas: que resenha bem escrita! Uma análise simples e direta e a expressão do sentimento simples e direta. Tudo o que se espera de quem se atreve a comentar o que pode ter passado na cabeça dos diretores. Gostei!

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