Os Contos da Seleção – Parte Dois – O Piloto (EXTRA)

Charlie

Entrei no escritório da psicóloga, depois de um longo tempo de espera em duras cadeiras de plástico. Depois de ver tantas pessoas saírem chorando, já me preparei para dar adeus ao programa e voltar ao meu trabalho na Guarda. Sentia-me pisando na toca dos leões.

Apesar disso, os tapetes não pareciam feitos de ossos e as paredes eram pintadas de creme, não de vermelho. E não havia nada de assustador no corpo daquela pequena mulher negra.

-Sr. Leger. Por favor, sente-se.

Nervoso, avancei e sentei-me. A mulher lia um arquivo sem olhar para mim.

-Nas suas avaliações escolares, o senhor foi classificado como emocionalmente instável. O senhor sabia disso?

-Sim, senhora. Mas isso se restringe meramente à minha personalidade. Meu desempenho não é nem um pouco afetado.

-Seu desempenho…- Ela franziu o nariz. Segurei a respiração. – Suas notas não estão nem sequer próximas do aceitável.

-Não. – Baixei os olhos. – Eu sei que não.

Ela limpou a garganta e olha para mim.

-Qual a sua motivação? Porque quer entrar nessa Academia?

Respirei fundo e sorri para ela. Essa era a pergunta que eu estava esperando.

-É o que eu sempre quis. Desde garotinho, em Angeles, quando eu via os aviões cruzando os céus no dia da Dissolução. Toda a minha vida gira em torno disso. Já é meu terceiro ano.

-Eu vejo… Mas, veja… Aqui nós queremos o melhor e… Até agora, eu não vejo o melhor. Ainda vejo uma garotinho, Sr. Leger e não dos mais inteligentes. Nossa academia…

Isso é importante, isso é importante, preciso prestar… Meus olhos são atraídos pelo modelo de avião pendurado acima da mesa. Um IL-470, com turbinas árabes e propulsão a som. Na teoria, o avião mais perfeito já projetado. Na prática? Um bando de desastres seguidos. Atrás, na parede, o projeto estampava o título IL-470. Franzi o cenho para ele.

-Senhor Leger!

-É falso.

Ela arregalou os olhos.

-Perdão?

Apontei para o projeto de avião.

-O projeto que você tem. É falso.

A psicóloga olhou para trás, embasbacada.

-Não, não é. É uma cópia oficial do…

-IL-470? Não, não é. Eu já vi o original, o primeiro, na biblioteca do castelo. Ele tem acabamento em madeira real na cabine. Bem ali, vê? – Apontei para a ponta do quadro, para a pequena representação. – O seu está vazio. Os copiadores esqueceram. Sem a peça de madeira os circuitos ficariam a mostra. Ah, e os flaps são de modelos de data mais avançada à da criação do primeiro IL-470. Poderia ser um upgrade, uma nova versão, é claro, mas porque não consertar o notório problema de cauda que levou ao acidente no Bancook River? Você foi enganada.

A mulher olhou do seu quadro para mim e me examinou detrás de olhos cerrados.

-IL-390. Ano?

-2050.

-Quem foi o primeiro piloto do RM-220?

-Capital Ronnald, também conhecido como Ronnie Rouxinol pela mania de cantar quando bebia.

Ela se ajeitou na cadeira e ficou calada. Engoli em seco. Talvez não tivesse ter dito nada sobre o quadro.

-Como alguém com um raciocínio tão rápido tem notas tão ruins?

-Eu não acredito em respostas únicas, senhora. Acredito em quebrar limites. Foi assim que consegui passar naquela prova tendo a capacidade de concentração de uma noz.

A psicóloga ponderou, batendo os dedos finos no queixo.

-Você admite que tem problemas de concentração. Como podemos confiar a você um avião?

Pensei no que dizer, mas a verdade é que eu tinha sido descoberto. Era um mentiroso, um fingidor barato. E não seria um piloto. Nesse caso, tanto fazia. Era melhor se abrir.

-Meu raciocínio não é uma linha reta. Não me concentro em uma, mas em várias coisas ao mesmo tempo. Enquanto um piloto normal só se concentra em manter o avião no ar, eu penso nisso, calculo o tempo de chegada, raciocino sobre a missão, penso o que vou comer no jantar e já estou pronto para atirar se precisar. E talvez isso não tenha importância ou seja um raciocínio falho. De qualquer forma, é o que eu tenho a oferecer.

A mulher assentiu.

-E se eu te mandar para casa agora?

Respirei fundo, passando as mãos pelo cabelo.

-Acho que será pior para você.

Ela ergueu uma das sobrancelhas.

-Por quê?

-Porque no ano que vem vou estar aqui de novo. E no próximo e no próximo. Porque meu maior problema era o teste. E agora que eu sei que posso passar, não vou mais desistir.

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