A Bomba

Ele precisa.
Não é que despreze todas as lições de etiqueta de sua vida. Não é que negue que aquilo não só é deselegante como o coloca de volta a um estágio anterior à civilização. E ele sabe que se não fosse com ele, ele condenaria aquele comportamento como alguém que não tem falha alguma.
Mas a necessidade é grande demais.
Então ele solta. A bomba do reich contra o solo britânico. Não, não faz barulho. Ufa! Que alívio.
Ah, não. Está cheirando. Está cheirando à vergonha. Gás lacrimogêneo, bomba de efeito moral. Com sorte, ninguém vai perceber. Essa é a esperança dele.
-Ei. Você tá sentindo esse cheiro?
Uma espiã americana sussurra no seu ouvido, sem ser ouvida pelo professor. Ele pragueja em russo na própria mente antes de soltar o álibi.

-Tô. Ui. Tá muito ruim, né?

-Tá. Nossa.
Ela se foi. Ele suspira. Finalmente acabou, tratado de Versalhes. Paz. Ou assim ele achava.
É engraçado como o cheiro viaja. Ele nunca desaparece quando se precisa. Ele precisar ser cheirado. Normalmente pelas pessoas erradas.
A barbie morena passa a unha pelo nariz, imaginando o que é aquele odor que não faz parte do seu mundo. Seu nariz se crispa. E a sirene soa:
-Ui, que nojo!
De repente, todos estavam sentindo. Os descerebrados, os inteligentes, os poucos maduros e as maduras demais.
-Mas que nojeira!
-Quem foi?
-Vai no banheiro, cara!
Ele começa a suar. Como escapar? Como escapar?
-É. Que nojo.
Diz, acusando os olhos com o olhar. Não sente culpa. Está salvando a própria vida.
O professor finalmente se envolve. Vem até o lado dele e cheira. O garoto fecha os olhos e espera.
-Puta que pariu, viu!
A porta é aberta. O ventilador é ligado. Aos poucos, os gases nocivos se afastam. Agora ele está livre, saiu impune.
Ainda assim, assina um protocolo de Kyoto. Um aperto assim, nunca mais.

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Os Contos da Seleção – Parte Dois – O Piloto (EXTRA)

Charlie

Entrei no escritório da psicóloga, depois de um longo tempo de espera em duras cadeiras de plástico. Depois de ver tantas pessoas saírem chorando, já me preparei para dar adeus ao programa e voltar ao meu trabalho na Guarda. Sentia-me pisando na toca dos leões.

Apesar disso, os tapetes não pareciam feitos de ossos e as paredes eram pintadas de creme, não de vermelho. E não havia nada de assustador no corpo daquela pequena mulher negra.

-Sr. Leger. Por favor, sente-se.

Nervoso, avancei e sentei-me. A mulher lia um arquivo sem olhar para mim.

-Nas suas avaliações escolares, o senhor foi classificado como emocionalmente instável. O senhor sabia disso?

-Sim, senhora. Mas isso se restringe meramente à minha personalidade. Meu desempenho não é nem um pouco afetado.

-Seu desempenho…- Ela franziu o nariz. Segurei a respiração. – Suas notas não estão nem sequer próximas do aceitável.

-Não. – Baixei os olhos. – Eu sei que não.

Ela limpou a garganta e olha para mim.

-Qual a sua motivação? Porque quer entrar nessa Academia?

Respirei fundo e sorri para ela. Essa era a pergunta que eu estava esperando.

-É o que eu sempre quis. Desde garotinho, em Angeles, quando eu via os aviões cruzando os céus no dia da Dissolução. Toda a minha vida gira em torno disso. Já é meu terceiro ano.

-Eu vejo… Mas, veja… Aqui nós queremos o melhor e… Até agora, eu não vejo o melhor. Ainda vejo uma garotinho, Sr. Leger e não dos mais inteligentes. Nossa academia…

Isso é importante, isso é importante, preciso prestar… Meus olhos são atraídos pelo modelo de avião pendurado acima da mesa. Um IL-470, com turbinas árabes e propulsão a som. Na teoria, o avião mais perfeito já projetado. Na prática? Um bando de desastres seguidos. Atrás, na parede, o projeto estampava o título IL-470. Franzi o cenho para ele.

-Senhor Leger!

-É falso.

Ela arregalou os olhos.

-Perdão?

Apontei para o projeto de avião.

-O projeto que você tem. É falso.

A psicóloga olhou para trás, embasbacada.

-Não, não é. É uma cópia oficial do…

-IL-470? Não, não é. Eu já vi o original, o primeiro, na biblioteca do castelo. Ele tem acabamento em madeira real na cabine. Bem ali, vê? – Apontei para a ponta do quadro, para a pequena representação. – O seu está vazio. Os copiadores esqueceram. Sem a peça de madeira os circuitos ficariam a mostra. Ah, e os flaps são de modelos de data mais avançada à da criação do primeiro IL-470. Poderia ser um upgrade, uma nova versão, é claro, mas porque não consertar o notório problema de cauda que levou ao acidente no Bancook River? Você foi enganada.

A mulher olhou do seu quadro para mim e me examinou detrás de olhos cerrados.

-IL-390. Ano?

-2050.

-Quem foi o primeiro piloto do RM-220?

-Capital Ronnald, também conhecido como Ronnie Rouxinol pela mania de cantar quando bebia.

Ela se ajeitou na cadeira e ficou calada. Engoli em seco. Talvez não tivesse ter dito nada sobre o quadro.

-Como alguém com um raciocínio tão rápido tem notas tão ruins?

-Eu não acredito em respostas únicas, senhora. Acredito em quebrar limites. Foi assim que consegui passar naquela prova tendo a capacidade de concentração de uma noz.

A psicóloga ponderou, batendo os dedos finos no queixo.

-Você admite que tem problemas de concentração. Como podemos confiar a você um avião?

Pensei no que dizer, mas a verdade é que eu tinha sido descoberto. Era um mentiroso, um fingidor barato. E não seria um piloto. Nesse caso, tanto fazia. Era melhor se abrir.

-Meu raciocínio não é uma linha reta. Não me concentro em uma, mas em várias coisas ao mesmo tempo. Enquanto um piloto normal só se concentra em manter o avião no ar, eu penso nisso, calculo o tempo de chegada, raciocino sobre a missão, penso o que vou comer no jantar e já estou pronto para atirar se precisar. E talvez isso não tenha importância ou seja um raciocínio falho. De qualquer forma, é o que eu tenho a oferecer.

A mulher assentiu.

-E se eu te mandar para casa agora?

Respirei fundo, passando as mãos pelo cabelo.

-Acho que será pior para você.

Ela ergueu uma das sobrancelhas.

-Por quê?

-Porque no ano que vem vou estar aqui de novo. E no próximo e no próximo. Porque meu maior problema era o teste. E agora que eu sei que posso passar, não vou mais desistir.

Bienal 2014: Uma feira, um sonho e uma decepção – Parte II

Parte II – O que eu comprei:

Por ter ido mais pelas pessoas do que pelos livros, acabei por não comprar tanto quanto algumas pessoas, mas tudo que comprei foi com descontos melhores ou iguais aos da internet com a vantagem de sair com o livro na mão. Os preços estavam bem melhores em comparação com os da edição anterior e eu fiquei bem feliz com minhas compras. Aqui vai uma lista dos livros que eu comprei:

  • A Escolha – Kiera Cass (Seguinte / Companhia das Letras)
  • Scott Pilgrim (Box com os três volumes) – Byran Lee e O’Malley (Quadrinhos na Cia. / Companhia das Letras)
  • Mágico de Oz – Frank L. Baum (Companhia das Letras)
  • Lemony Snicket – 1 e 2 – Lemony Snicket (Companhia das Letras)
  • Princesa Mecânica – Cassandra Clare (Galera Record)
  • Eles Não Usam Black Tie – Gianfrancesco Guarnieri (Galera Record)
  • Beemote – Scott Westernfeld (Galera Record)
  • Hit Girl 2 (Panini)

DICAS

Em primeiro lugar, um quadrilhão de desculpas por isso não ter ficado pronto antes da Bienal acabar, mas eu acredito que minha sabedoria poderá ser utilizada em bienais futuras. Logo, aqui estão algumas dicas para a Bienal do Livro, em especial de São Paulo. 

  • Leve uma calculadora para calcular os descontos para ter certeza de que não está sendo cegado pela beleza dos descontos. 
  • Faça uma lista de livros e confira seus preços online antes de sair saltitando pelo imenso mundo da bienal. 
  • Dê uma chance às editoras pequenas e autores desconhecidos, em especial brasileiros. Converse com eles. Não machuca. 
  • Não se esqueça de levar água – sério, água é vida lá dentro – e comida (o almoço todo, se possível). 
  • Lembre-se que lá dentro é MUITO quente então, por mais que esteja frio, vá com roupas frescas. 
  • Tente deixar sua bolsa o mais leve possível para carregar os livros. Alguns optaram por carrinhos de feira – embora sejam difíceis de manobrar – e malas de viagem. Escolha o que achar mais eficiente e condizente com o número de livros que você pretende comprar. 
  • Esteja preparado para andar. MUITO. Mesmo. De verdade. 
  • Esteja preparado para não ver tudo o que você quer porque o número de pessoas e filas é absurdo. 
  • Falando em filas, esteja pronto para ficar nelas. 
  • Não confie no mapa. Ele é mais indecifrável que o código Da Vinci. 

 

 

Bienal 2014: Uma feira, um sonho e uma decepção – Parte I

Fui no último sábado à 23ª Bienal Internacional do Livro em São Paulo. Para resumir minhas experiências, decidi fazer uma sequência de três posts, entitulados:

  1. Quem eu conheci.
  2. O que eu comprei e algumas dicas.
  3. A péssima feira à que compareci.

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RESENHA // Doctor Who

ATENÇÃO: Esse artigo contém spoilers sobre a trama de Doctor Who (“Série Nova” – BBC – 2005)

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RESENHA // Once Upon a Time

ATENÇÃO: O artigo contém spoilers sobre a trama da Série Once Upon a Time (ABC – 2011)

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